Créditos: Alberto Matos
Créditos: Alberto Matos

No rescaldo da manifestação de 17 de Setembro de 2025, que juntou perto de cinco mil imigrantes frente ao parlamento, circularam algumas opiniões em defesa de uma greve só de imigrantes: "Vamos mostrar a nossa força e parar o país!".

O sentimento de revolta é justo, face à exploração e à perseguição de que são alvo por parte dos patrões e das políticas xenófobas e antissociais do governo, em conluio com o partido neofascista Chega. Mas o deslumbramento com o ímpeto desta grande manifestação poderia conduzir a formas de luta isoladas, que levariam água ao moinho de quem nos explora e oprime.

Os imigrantes representam hoje cerca 20% da classe trabalhadora em Portugal e desempenham funções essenciais na economia. São portadores de muitas identidades que enriquecem o diálogo intercultural, mas não possuem uma identidade de classe distinta dos restantes trabalhadores.

Por isso, a convocatória da greve geral de 11 de Dezembro pela CGTP, UGT e muitos sindicatos, foi um clique: é agora! Afirmámos desde a primeira hora que a greve só seria mesmo GERAL se incluísse os imigrantes.

A greve geral começa antes da meia-noite, nos transportes e abastecimentos, prossegue às cinco da manhã com a adesão de quem limpa os bancos e os escritórios, garante a segurança e os cuidados, culminando nas empresas, escolas e estabelecimentos encerrados e em grandes manifestações nas cidades e vilas.

[Esta greve geral já teve a participação de milhares de imigrantes em diversos setores], até na Autoeuropa, como se percebia pela diversidade de sotaques no piquete de greve e nos plenários. Mas há muito por fazer: a participação não foi homogénea - é tanto mais difícil assumir a luta quanto mais precário és.

No limite, em especial na agricultura, encontramos em situações de trabalho forçado uma espécie de "infra proletariado" que não é livre sequer de escolher a quem vende a sua força de trabalho, isto é, de mudar de patrão - verdadeiros escravos de uma dívida contraída logo nos países de origem e cobrada até ao último cêntimo, à taxa de juro fixada pelas máfias. As próprias famílias ficam reféns e são penhor do pagamento dessa dívida.

A participação na greve geral foi um primeiro passo que nos convoca a ir mais longe na compreensão destes fenómenos e das suas raízes históricas. Só na diversidade é possível construir uma unidade sólida da classe trabalhadora, composta por mulheres e homens de diferentes origens nacionais, étnicas, linguísticas, culturais, com diferentes graus de precariedade e de consciência social. Mas todos/as vítimas do pacote laboral e de outras políticas antissociais da direita extremada.

Escravatura, disse a PJ

No final de novembro de 2025, a Polícia Judiciária (PJ) efetuou dezassete prisões na zona de Beja, no âmbito de uma operação de combate ao tráfico e humano e à escravatura laboral que se estendeu a Portalegre, Figueira da Foz e Porto -- o que atesta a dimensão nacional deste fenómeno.

A novidade é que mais de metade dos detidos são membros de forças policiais (dez da GNR e um da PSP), sendo os restantes donos de empresas de trabalho temporário, prestadores de serviços ou capatazes. É a terceira operação de grande envergadura e impacto mediático, nos últimos quatro anos -- uma espécie de "prenda de Natal" da PJ, no pico da campanha da azeitona e que este ano recebeu o nome de código "Safra Justa".

Mas será que podemos dormir descansados? Infelizmente não, pois a fonte do problema está a montante, nas herdades onde a força de trabalho imigrante é alugada e explorada. Uma investigação a sério terá de seguir o rasto das carrinhas até herdades e responsabilizar os seus donos pelos crimes de escravatura e outros ilícitos (laborais, tributários, segurança social...) cometidos dentro dos seus domínios e dos quais são os grandes beneficiários -- o que pagam aos intermediários por empreitada não daria sequer para pagar o salários mínimo a cada trabalhador...

Este esquema de subcontratação abusiva de tarefas agrícolas é possível porque o hiperlatifúndio de regado, as sociedade financeiras que se tornaram os novos donos do Alentejo e do país, "têm as costas quentes".

ACUSO diretamente o governo da AD, o primeiro-ministro Luís Montenegro e o seu parceiro André Ventura pelo alastramento do TRABALHO ESCRAVO.

Há um ano e meio, começaram a alterar a Leis de Imigração, de forma cirúrgica, pelos Artigos 88-2 e 89-2 que instituíram as chamadas "manifestações de interesse" - precisamente os artigos que configuravam um processo permanente de regularização de quem nos procura para viver e trabalhar e tanta falta faz num país e numa Europa em "inverno demográfico". A direita extremada, racista e xenófoba, iniciou o seu ataque precisamente por estes artigos, que já constavam da Lei 23/2007, melhorados e reforçados como direitos nas alterações legislativas de 2017 e 2019.

Mas não são as leis que moldam a vida, o determinante é a base económica a que Marx chamou a infraestrutura da sociedade. As leis respondem, melhor ou pior e geralmente em atraso, ao pulsar da vida económica. Ao fechar as portas da regularização de imigrantes, era inevitável o disparar da economia paralela e do trabalho não declarado, em condições próximas da escravatura. A queda anunciada das contribuições para a segurança social em 2025 é um primeiro sintoma das escolhas do governo AD.

Numa simples frase: é a economia, estúpido!

Sudoberry -- uma luta exemplar

Créditos: Paulete Matos
Créditos: Paulete Matos

São raras as lutas de trabalhadores imigrantes que chegam ao conhecimento público. No entanto elas existem, quase sempre invisíveis.

Em 2017, no concelho de Silves, os trabalhadores ameaçaram com greve à apanha da laranja se não fosse concedida Autorização de Residência a quem já tinha um ano de descontos para a segurança social -- o que acabou consagrado na Lei 28/2019.

Em 11 de Fevereiro de 2022, cerca de 300 trabalhadores permanentes da Sudoberry, em Odemira, ao saberem que o administrador espanhol estava na empresa, dirigiram-se ao escritório. Reclamavam das 12 horas de trabalho diário, com apenas 30 minutos para refeição; de não terem água potável para beber no ambiente escaldante das estufas; e da falta de transparência da folha salarial: as horas-extra, ao fim de semana e feriados, eram pagas pelos mesmos 6,22 euros.

Um jornal diário chamou-lhe "A revolta dos imigrantes de Odemira que perderam o medo"

Créditos: Jornal Público
Créditos: Jornal Público

Uma Câmara de TV fez a diferença, ao divulgar esta luta quase em direto.

Foi uma novidade gritante que pode frutificar na selva laboral da imigração.

Viemos de muito longe 1

Da Mãe África, através de savanas e desertos, cruzámos mares e espalhámo-nos pela Eurásia. Escalámos montanhas e atravessámos estepes infinitas resistindo a frios glaciais, cobrindo-nos com peles de animais que aprendemos a caçar e/ou domesticar.

Pelo caminho fomos perdendo melanina, ganhando novos tons de amarelo e rosa mais ou menos pálido a que, por defeito, chamámos branco. Os cabelos clareando até se confundirem com o brilho do sol ou com as cores do fogo.

De olhos em bico, não nos detivemos nas margens dos grandes oceanos, a leste e a oeste. Há sempre um estreito, nos mares da Gronelândia, de Bering ou de Magalhães, para chegar às Américas de costa a costa... E fomos esquecendo a nossa matriz comum em África.

Eis, em traços largos, a saga do chamado Homo Sapiens, apesar da pouca sapiência com que temos lidado com as outras espécies e com o nosso semelhante -- esta é outra conversa que nos levaria ao estudo dos diferentes modos de produção e dos sistemas sociais que fomos construindo.

Uma coisa é certa: não saímos de nenhuma costela de Adão. E até o mais empedernido racista, machista ou eurocêntrico é devedor de tributo genético à grande avó africana Lucy2, Mtoto ou aos mil nomes propostos pelos/as antropólogo/as.

A História da humanidade confunde-se, em larga medida, com a história das migrações. Estas só irão parar se e quando já tivermos dado cabo do planeta.

Invocando mais uma vez o poeta de tantas partidas e chegadas, desta vez no genial "FMI", em 1982:

"Neste cais está arrimado o barco sonho em que voltei
Neste cais eu encontrei a margem do outro lado, Grândola Vila Morena"

Notas

  1. O título remete intencionalmente para o poema "Eu vim de longe, eu vou p'ra longe" de José Mário Branco, ele próprio um andarilho da canção de resistência. Como muitos portugueses que tentavam escapar à fome e à guerra colonial, colocaram a vida nas mãos de passadores que, a troco do vil metal, tantas vezes os abandonaram aquém ou além dos Pirenéus. Com sorte, conseguiram chegar ao "Eldorado" de Champigny ou a outro bidonville para construírem a Europa dos "trinta anos gloriosos".

  2. https://www.dw.com/pt-002/lucy-o-f%C3%B3ssil-que-reescreveu-a-hist%C3%B3ria-da-humanidade/a-42478592