
Estamos a começar 2026. Os trabalhadores por App, Estafetas ou TVDE, estão cada vez mais endividados e sem esperança, ou até com fome. O trabalho Uberizado está cada vez mais precarizado ano após ano e desesperador. Não importa o dia e a hora para pedir transporte, medicamento, produto de higiene ou alimento. As profissões antes vistas com admiração e inovação, seguras e necessárias, são usadas para uma exploração cruel onde o suor não paga sequer o pão, um modelo que esmaga quem o sustenta.
Vemos Motoristas a cambalear de sono em frente aos grandes centros comerciais e pontos turisticos, sem o descanso devido e dormindo no próprio carro, pondo em risco a sua própria segurança e dos passageiros. Estafetas com mochilas térmicas cheias e de barrigas vazias. Carros e motas sem manutenção, trabalhadores que arrendam um apartamento de 2 ou 3 quartos para compartilhar entre dezenas de outros trabalhadores desconhecidos, mostrando a exploração cometida também pelo setor imobiliário. A profissão é formada, em maioria, por imigrantes sem documentos ou em fase de regularização. Assim, o trabalhador vai reclamar a quem, se ele "não existe"? O Governo apenas ignora tudo isto por meio da AIMA (Agência para a Integração, Migrações e Asilo), negligenciando e dificultando a obtenção dos documentos pessoais, proporcionando um ambiente propício para toda a exploração com trabalhadores sem dignidade e sem vida.
A Agenda do Trabalho Digno, aprovada em 2023 e ainda em vigor, está a ser posta em causa, desde Julho de 2025, pelas propostas de alteração no Código do Trabalho, atingindo os Trabalhadores por App. Percebe-se, de fato, uma relutância dos legisladores, aparentemente temendo o embate em torno da questão, seja por ignorância sobre a profissão ou sobre a exploração sofrida pelos trabalhadores.
Neste cenário, o Patrão Algoritmo impera. Estafetas e TVDEs pelas ruas, fiscalizados, cobrados e punidos por um Bot Algorítimo sem direito à defesa ou sentimentos. O sabor amargo da exploração e indignação sem ter a quem reclamar os pagamentos errados e descontos sem explicação. O Algorítimo age de forma discricionária e orquestrada com os seus interesses de auferir lucros draconianos, sendo cobrados em média, em cada venda, 30 % do restaurante e apenas uma parte do pagamento pela entrega é repassado ao Estafeta. Para o Motorista de TVDE a lógica é a mesma, retira a maior parte paga pelo cliente e repassa para o trabalhador apenas o suficiente para sobreviver e minimamente fazer a manutenção do veículo... a conta nunca fecha. Assim as Empresas de Aplicativos lucram em cima dos restaurantes, das entregas ou passagens dos clientes e ainda retira a maior parte do que seria destinado aos trabalhadores, Estafeta e Tvde.
Os tribunais portugueses, timidamente começaram a dar razão a alguns estafetas que querem ter contrato de trabalho. Em Espanha, já se vislumbra a celebração dos primeiros vínculos laborais, mas ainda em sede de recurso e recursos o que prevalece são as decisões em prol das empresas multinacionais, baseadas quase sempre nos mesmos argumentos: que o estafeta tem liberdade de trabalhar em diversas plataformas ao mesmo tempo, pelo simples facto de conseguir ficar online em mais de uma aplicação de entrega, esquecendo-se que, a partir do momento que um pedido é aceito, não é recomendável que se recolha outro no mesmo momento, ou seja , não existe duplicidade de patrões em nenhum momento.
A verdade é que o trabalhador uberizado nunca esteve mais desamparado. Como não tem patrões, como punição também não tem direitos. Refém do algoritmo implacável, você pode não trabalhar, mas a conta no fim do mês não tarda em chegar, ele não respeita, doença, luto ou coisa que o valha. Ninguém vai aposentar como estafeta, a rotatividade enfraquece a luta por melhores condições, porém salva os tripulantes deste barco à deriva.
Agora fica fácil começar a entender o porquê destes trabalhadores, Estafeta e Tvde, passarem 12, 14 ou até 18 horas trabalhando diariamente. Não há férias anuais, folgas semanais, pagamento de horas extras ou adicional noturno. Estes trabalhadores tem família para sustentar e são forçados e trabalhar numa espécie de confinamento sem fim. A promessa de flexibilidade e autonomia, eram apenas armadilhas e os custos operacionais, insustentáveis. E assim, explorar o máximo de lucro em cima dos trabalhadores totalmente subordinados. A falta de transparência é total e reclamar pode causar penalizações ou banimento do trabalhador. Reclamar a quem? Onde está o escritório da Empresa, onde estão os responsáveis? É evidente que estes algorítimos precisam de uma regularização e o Governo precisa apoiar a Organização Coletiva, fiscalizar e dar o mínimo de segurança trabalhista e dignidade para estes Seres Humanos explorados
A Uberização é um sistema montado para moer gente e obter o máximo de lucro... sem regras, e pelo lucro em cima dos trabalhadores, vale tudo!
A Asitrap - Associação dos Imigrantes e Trabalhadores por Aplicação, foi fundada formalmente em fevereiro 2025 para ser o rosto da luta destes trabalhadores. Veio na sequência do grupo Estafetas em Luta, que nasceu em 2019 reunindo 48 estafetas da região norte, que lutaram contra as más condições de trabalho, e da fusão deste grupo com outros de outras regiões do país. A Asitap continua esta luta, toma posição, oferece informações de oportunidades de emprego, formações com aula de português para uma melhor inclusão social do imigrante, principalmente os de origem do Bangladesh, Índia e Paquistão, povo este que domina atualmente o mercado de entregas de comida em Portugal. E tem sido uma voz coletiva destes trabalhadores, que muitos ainda não querem escutar, mas que são uma parte essencial deste país e da classe trabalhadora que o faz mover.