*A revista "Que Força É Essa?" passa a acolher na secção "Culturas do Trabalho", a partir deste número, uma série intitulada "Cromos da Caderneta do Trabalho", da autoria de Jorge Louraço Figueira. A partir de exemplos desenvolvidos por si, enquanto dramaturgo, e por outros, levantará o véu sobre a invenção dessas figuras, refletindo também sobre o sobre o modo como são levados à cena e representados os protagonistas do trabalho em Portugal e em que medida essas representações nos falam das transformações no mundo laboral, na economia, mas também nas subjetividades e na ação das classes que vivem do trabalho. A série começa com "O Estafeta".
(A Direção da revista)
Cromos da Caderneta do Trabalho
1. O Estafeta

O estafeta dos doze trabalhos é a mais recente personagem-tipo das cenas de trabalho que podem ser vistas nos palcos de Portugal e não só: aquela figura do entregador de mala cúbica colorida às costas que também faz umas horas como guia turístico do Porto; dá aulas e explicações numa plataforma de serviços online; vai a casa do cliente entregar pacotes de 250 gramas de sativa ou indica, arábica ou robusta, conforme o pedido; e ainda agradece. Além disso, colhe nas estufas do Oeste as rosas que vende na Ribeira do Porto ou na Baixa pombalina --- e cravos na noite de 24 para 25 de Abril. Está à vista a qualquer hora, em qualquer lugar --- ao ponto de ser visto também no teatro, em vários espetáculos recentes. A figura mistura-se com o asfalto e empedrado das cidades tal como as pessoas escravizadas das ilustrações do séc. XIX se fundiam com a paisagem natural, fosse do Congo, fosse da Amazónia; ou com as plantações de açúcar, café e chocolate dos trópicos. Tudo a ser explorado.
Em cena, o estafeta é a metáfora da desigualdade. A imagem foi sintetizada com especial felicidade num espetáculo de Sara Barros Leitão, Suplicantes, em que um entregador atravessa o mar mediterrâneo para fazer chegar uma refeição quente a um deputado do Parlamento Europeu.

A fotografia de divulgação do espetáculo lembra que por trás de cada entrega, longe da vista de toda a gente, há muito esforço ainda por ser visto. As mochilas térmicas substituem os tornos mecânicos ou as enxadas. Para responder a isso, num trabalho recente da Red Cloud Teatro de Marionetas, Precópio, um espetáculo sobre o PREC, com quadros e números cantados, em que tentávamos não cair na armadilha da nostalgia da revolução, ensaiámos um curto-circuito entre o período revolucionário de 1974-75 e a precariedade dos nossos tempos. Entre outras cenas que não cabe aqui recapitular, primeiro, refizemos a famosa cena da enxada do filme Torre Bela como um número de teatro de Robertos.

Na foto, os Robertos (nas mãos de Sara Henriques e Inês Teixeira) que representam Vitória, Eugénio e Wilson, as pessoas que participam na cena do filme de Thomas Harlan. A enxada que Vitória segura tem na base um Zé Povinho. Depois glosámos essa mesma cena, com dois estafetas, de nome de código Foxtrot e Precópio, no lugar do revolucionário Wilson e do camponês Eugénio, e dando voz a um Zé Povinho (que era ao mesmo tempo a Enxada), como se pode ver na foto seguinte.

A cena é cantada e a música é tradicional, tocada ao piano por Pedro Almeida, e os versos são de Jorge Louraço Figueira e de Pedro Almeida. Trata-se de uma chula, que pode ser ouvida aqui, para acompanhar a cantoria:
Os versos ficaram assim:
ZÉ POVINHO
Isto é da comprativa!
Tudo isto é da comprativa!
Não é tua, não é minha,
É tudo da comprativa!
Vem p'ra cá prà comprativa,
qu'a gente dá cem escudos.
qu'isto já não é só teu,
é meu, nosso, d' todo o mundo.
EUGÉNIO
Daqui a nada o que eu visto
e calço é da comprativa?
Amanhã tiram-me as botas,
fico nu na comprativa.
WILSON
Tu não ficas nu, tu ficas com
com mais roupa qu'a que tens!
Só assim vamos p'à frente
A gente dá-te os vinténs.
FOXTROT
Daqui a nada também
o telemóvel que eu uso,
a mala que eu carrego,
tudo é da comprativa?
PRECÓPIO
A mala que eu carrego,
o capacete que boto...
Amanhã tiram-me a moto,
fica lá p'à comprativa?
FOXTROT
Enquanto for tudo meu(e),
não devo nada a ninguém.
Mesmo que em boa verdade
Não ganhe nem um vintém.
PRECÓPIO
Tu não estás a entender.
Não percebes mesmo nada.
Eu estou a empreender.
Tenho os filhos na privada.
FOXTROT
Depois do expediente,
Vou prò segundo trabalho.
Levo as compras ao cliente
'té na casa do caralho.
(É assim que me valho!)
ZÉ POVINHO
(Ganhas bem com'ò caralho...)
Dizes ter tantos trabalhos
mas todos te deixam nu.
Tanto perdes os vinténs
Quantos trabalhos tens tu.
(Até os perdes no cu...)
Dizes que vales por dois,
A achar que ganhas dobrado.
Abre mas é os dois olhos,
Estás duas vezes vergado.
ZÉ POVINHO, FOXTROT, PRECÓPIO
A achar que ganhas dobrado,
Estás duas vezes vergado.
A dramaturgia serve para mostrar a singularidade destas figuras e o funcionamento do sistema. O entregador é apenas um peão no modelo de encomendas digitais que faz a fortuna dos donos de aplicações informáticas, fórmulas e algoritmos, redes e dados, servidores e chips, lítio e eletricidade --- e miolos e braços para fazer a roda girar. Até ver!